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SÓ DANÇO SAMBA... A classe média e a música popular: curiosidade, interesse, esquecimento e resgate Monnik Lodi Poubel |
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CAPÍTULO I
“... já nas vésperas da Independência que um povo nacional vai se delineando musicalmente e, certas formas e constâncias brasileiras principiam se tradicionalizando na comunidade, com o lundu, a modinha, a sincopação”. Mário Vianna também
defende a idéia no livro O mistério do samba. O autor
reafirma que a relação entre segmentos da elite brasileira
– como fazendeiros, políticos, aristocratas – e músicos
pertencentes às classes mais baixas da população
é uma prática comum desde o século XVIII. “Nos últimos dias do Império finalmente e primeiros da República, com a modinha já então passada do piano dos salões para o violão das esquinas (...) a música popular cresce e se define com uma rapidez incrível”. Em 1930 Mário de Andrade defende, no prefácio da sua coleta Modinhas imperiais, que “a proveniência erudita europea das modinhas é incontestável”. Essas são as palavras do autor sobre a origem do gênero: “Os documentos musicais
e textos mais antigos se referindo a ela, já designam peças
de salão, e todos concordam em dar à modinha uma origem
erudita, ou pelo menos da semi-cultura burguesa”. “Tanto na vida de estudante
quanto na militar, ou ainda na de boêmia a que se entregou durante
mais de dez anos, após sua volta ao Rio, em 1762, todos os contatos
de Domingos Caldas Barbosa terão sido com mestiços, negros,
pândegos em geral e tocadores de viola, e nunca com mestres de
música eruditos”. “O verdadeiro e legítimo estilo textual dos lundus implica num texto sexual mas cômico, ou mais geralmente gracioso, risonho, desprovido da tristeza sentimental das modinhas. O lundu de Cândido da Silva nada tem de amoroso, e muito menos se refere a negras e mulatas sexuais...” Mário de Andrade procura
mostrar como o lundu – considerado “música de negros”
e gênero não pertencente à cultura brasileira –
irá, nesse momento, penetrar na sociedade brasileira, sociedade
esta que, desde o período colonial estabeleceu forte resistência
em relação a quaisquer manifestações artísticas
de origem negra. Vale lembrar que estamos diante de uma sociedade que
até o final do século XVII separa marcadamente os brancos
europeus colonizadores e seus filhos nascidos na colônia dos negros
africanos e seus descendentes. “Com a progressiva diversificação da produção colonial na viragem dos séculos XVII-XVIII, porém, quando principalmente na Bahia a maior diversificação do trabalho – que agora ampliava o trabalho livre de brancos pobres, mulatos e crioulos forros – veio complicar o quadro social, a linha de classe, antes tão nítida, passou a matizar-se” . Concordando com Mário de Andrade, Tinhorão chama a atenção para o fato do aparecimento do lundu ainda no século XVIII ter marcado o momento de aceitação pela sociedade branca das contribuições declaradamente negras, agora já não representadas somente pela dança de umbigadas, mas também pela música. O autor ainda acrescenta que o Brasil colonial, devido à sua concentração urbana e “mistura” étnica, racial e cultural favorece a existência de uma certa promiscuidade social rica de conseqüências culturais na área das diversões. O samba e o choro Já quando observamos estudos e descrições sobre o samba e o choro, tratando-se agora de gêneros pertencentes a uma “autêntica” música popular brasileira – exercendo inclusive papel fundamental na construção da identidade nacional – podemos perceber que sempre se falou em uma mistura racial e social. Parece ter sido sempre comum pessoas da elite procurarem e freqüentarem esses ambientes musicais considerados promíscuos e degenerados por grande parte da sociedade brasileira. As descrições de Francisco Guimarães, mais conhecido como Vagalume, das festas da casa de Tia Ciata revelam a existência de indivíduos que exerciam o papel de mediadores culturais, e que, mesmo pertencendo às classes “superiores”, freqüentavam as festas populares: “Quando formava-se a roda, os componentes eram a elite, e os convidados, gente escolhida, que merecia ser chamada de Iaiá e Ioiô.” Essa gente escolhida, ainda segundo Francisco Guimarães era gente do alto, “gente graúda: seu barão, seu comendador, e o português da venda e do açougue (...) O samba daquele tempo, em que tomava parte a elite, a alta roda, era o que se podia dizer uma coisa do outro mundo!” Além desse tipo de descrição a presença da elite branca está testemunhada em letras de música: Samba de partido-alto No caso do samba de partido-alto
há ainda duas vertentes elitistas. A primeira deve-se ao caráter
tradicionalista atribuído ao partido-alto. Representando o samba
“autêntico”, a roda de partido-alto só permitia
a “nata de bambas”, e no mais, aqueles que fossem julgados
como pertencentes às “verdadeiras raízes”
do samba, como a “cabrocha que samba de fato” e o “mulato
filho de bahiana”. A segunda categoria seria composta por espectadores
brancos, que deveriam apenas assistir a roda. Nessa segunda seleção
só seriam admitidos membros da elite – desta vez, em termos
econômicos e de prestígio. “A festa era assim: baile na sala de visita, samba de partido-alto nos fundos da casa e batucada no terreiro” (João da Baiana) . “Em casa de preto, a festa era na base do choro e do samba. Numa festa de pretos havia o baile mais civilizado na sala de visitas, o samba na sala do fundo e batucada no terreiro”.(Pixinguinha) . Quando Pixinguinha usa a expressão “baile mais civilizado” refere-se ao choro, que era tocado na sala de visitas e mais “bem freqüentado”. Assim como acontece com a modinha, a origem e os desdobramentos do choro representam uma “confusão” de influências brasileiras e européias, populares e não populares. No caso do choro acontece o inverso do que já vimos: gêneros musicais tocados nos salões europeus serão incorporados pelas camadas populares e modificados, dando origem a um novo gênero musical, agora sim reconhecido como popular e brasileiro. Para Carlos Sandroni: “A palavra choro designou a princípio um agrupamento instrumental que surgiu por volta dos anos 1870 (...) Sua formação clássica era flauta, cavaquinho e violão, e seu repertório inicial, danças de proveniência européia, sobretudo a polca, mas também a schottisch, a valsa e algumas outras (...) a criação do choro acompanhou, do ponto de vista musical, o processo a que nos referimos atrás, de adoção pelas camadas populares de novas maneiras de dançar”. Segundo Tinhorão a origem do choro está na interpretação que os músicos populares do Rio de Janeiro imprimiam à execução das polcas, sucesso no Brasil desde 1844. Mais tarde outros gêneros, também europeus, são incorporados e o choro se expande e se populariza. “A partir de 1880, com a proliferação dos pequenos grupos de flautas, violão e cavaquinho, transformados em acompanhadores do canto de modinhas sentimentais e tocadores de polcas-serenatas à noite, pelas ruas, e em orquestras de pobre, para fornecimento de música de dança nas casas dos bairros e subúrbios cariocas mais humildes , a música do choro vai se tornando cada vez mais popular (...) Os componentes dos conjuntos de chorões cariocas do fim do século XIX e do início do presente século eram, na sua quase totalidade, representantes da baixa classe média do Segundo Império e da Primeira República.” O choro confirma e fortalece,
portanto o intercâmbio cultural entre camadas da elite e populares,
contando com a participação de membros da classe alta
(como Chiquinha Gonzaga) e do povo (como Pixinguinha) para sua formação
e consolidação no Brasil. Formação esta
que abrange influências musicais e instrumentais negras e européias.
Essa convivência entre diferentes segmentos sociais que se configura na formação e consolidação do cenário musical brasileiro não foi comum só em relação à música, mas também durante a festa considerada o símbolo da comemoração popular: o carnaval. A “mistura” social pode ser confirmado por um jornal não identificado, que data 1921, valendo a pena também observar o caráter preconceituoso com que trata as figuras de classes e raça consideradas inferiores: “O nosso carnaval concorrem toda espécie de gente, de todas as classes. A mais elevada confunde-se com os aventureiros e desclassificados nos bailes dos grandes hotéis, onde tem entrada quem possa dispor de 80 $ por cabeça para dançar (...) A outra classe de gente que faz o carnaval é o povo. Este acha a opportunidade para fazer o que pensa ser a sua liberdade e um direito seu. Começa pelo modo insólito de fantasiar-se. Quanto menos roupa e menos limpesa, melhor. Desde o casaco de casemira grossa, pelo avesso, até a camiseta de meia, sem mangas, tudo serve. O aspecto physico é o que se pode imaginar de uma raça feia”. Apesar de serem tratados como uma ameaça iminente à ordem e à moral, principalmente durante as festas carnavalescas, era nessa época do ano que era permitido aos pobres e negros desfrutar de certo grau de igualdade, liberdade e diversão. Anteriormente ao surgimento do carnaval no Brasil havia uma reminescência de festas pagãs greco-romanas realizadas a 17 de dezembro (saturnais) e 15 de fevereiro (lupercais), chamada de entrudo . No livro História do carnaval carioca (Eneida), podemos perceber que, apesar de haver opiniões contrárias acerca do surgimento do carnaval, em todas elas a festa aparece como um momento onde as barreiras sociais são superadas e as pessoas abandonam as convenções e se libertam dos preconceitos, como podemos perceber nas descrições sobre as festas saturnais em Roma: “Homens, mulheres, crianças e velhos, libertos e até mesmo escravos pareciam enlouquecer. Em frente das casas armavam-se grandes mesas, e todos, sem distinção, podiam comer à vontade. O comércio fechava, os tribunais não funcionavam, as escolas cerravam suas portas. Época de tanta alegria e desvario que nela até os escravos podiam dizer verdades aos seus senhores, ridicularizá-los, fazer o que desejassem”. Independente da época
ou local em que tenha surgido, o carnaval se tornou uma festa popular,
onde, pelo menos temporariamente era mantida uma certa igualdade entre
as diversas camadas sociais. Senhores e escravos, nobres e plebeus,
ricos e pobres sempre caíram na folia com o mesmo entusiasmo.
E era nessa época que, desfrutando da liberdade e de certa dose
de igualdade os escravos podiam se vingar dos seus senhores através
da zombaria e das brincadeiras como jogar água e farinha. “Título § 2 – Fica proibido o jogo do entrudo dentro do município; qualquer pessoa que o jogar incorrerá na pena de 4$ a 12$ e não tendo com o que satisfazer sofrerá oito dias de cadeia, caso seu senhor não mande castigar no calabouço com cem açoites, devendo uns e outros infratores serem conduzidos pelas rondas policiais à presença do juiz para os julgar à vista das partes e testemunhas que presenciaram a infração.” O ideal de civilização baseado nos moldes europeus faz crescer os “elegantes” bailes de máscara que imitavam o carnaval europeu. Estes bailes já existiam desde 1840, sendo assim anunciado no Jornal: “Baile de máscaras como se usa na Europa por ocasião do carnaval”. E de divertimento popular que era, o carnaval passou a atrair a simpatia das famílias ricas, que começaram a freqüentar os bailes sob a curiosidade de ver a “massa” se divertir sem se misturar. Apesar do seu crescimento e expansão, os primeiros bailes realizados no Rio de Janeiro só contavam com a participação efetiva do povo, enquanto os nobres cumpriam o papel de espectadores: “... tanto os bailes do Hotel Itália quanto os dos teatros não contavam com a participação ativa das famílias; naquele tempo elas não se misturavam com o povo, mas, para não perderem o espetáculo, iam, curiosas, ocupar os camarotes. Apenas viam de longe, e naturalmente com inveja a plebe que dançava, cantava e pulava”. Somente a partir do final
do século XIX e início do Século XX, o preço
elevado das entradas nos bailes carnavalescos faz com que eles se tornem
uma festa para a elite, excluindo a participação popular.
Podemos perceber esse processo de elitização e exclusão “Já então
as festas eram regadas a champanha – legitimamente francês
– assim como o confete dourado. A música era feita de instrumentos
como o violino e o piano. A dança, a polca. Os salões
– iluminados à gás – eram enfeitados com flores
artificiais. Não se podia fumar, dar gritos nem dançar.”
“Divertem-se (...) por um instinto natural de expansão, de liberdade, de indisciplina, de bestialidade innata. Sentem-se, por isso, à vontade, livres de qualquer constrangimento social, entregues ao seu pendor nativo. Os negros e as crianças dão o melhor especimem do gênero e os cordões representam a forma mais adequada – forma que recorda a tribu”. Os cordões constituíam
uma sobrevivência das alas de certas procissões e eram
compostos por negros, mestiços e alguns brancos das camadas mais
humildes da cidade que saiam fantasiados pelas ruas de forma desorganizada,
ao som de instrumentos de percussão, dançando livremente
pelas ruas os passos que a música sugeria. Sobre a formação
dos cordões e outras formas carnavalescas criadas pela população
a partir da exclusão citada anteriormente disse Tinhorão: Como podemos perceber, as origens e a História do carnaval no Brasil, mais especificamente no Rio de Janeiro é bastante complexa. Associar o nascimento do carnaval somente aos negros e pobres é uma visão bastante simplificadora diante da gama de fenômenos e transformações que essa festa causou e pelas quais passou ao longo das décadas, que, assim como vimos, se estende à música popular brasileira. Apesar de não ser o caso de entrarmos nessa questão, vale chamar a atenção para a relação direta existente entre o carnaval e a música, sendo muitas vezes um a extensão da outra e vice-versa. Portanto, tanto no carnaval quanto na música popular houve um intercâmbio cultural que conseqüentemente fez com que estes sofressem influências de segmentos sociais distintos na sua origem e formação, assim como também existiu a convivência entre essas diferentes classes em determinados momentos, mesmo que cada um ocupasse o seu espaço e tivesse funções diferenciadas. Claro que, apesar de incluir a participação de outras classes sociais, a maior parte da camada da população que faz o carnaval são as grandes camadas populares pobres. O carnaval de classe média se restringia aos bailes e salões, com pequena participação nas ruas, onde o carnaval era representado pelos ranchos, cordões e blocos. CAPÍTULO II
A política nacionalista
e populista inaugurada por Getúlio Vargas será responsável
pela criação de uma nova ideologia em torno da Música
Popular Brasileira, principalmente do samba, iniciando-se o processo
de aceitação e incorporação do gênero
pelas elites – processo este que terá continuidade ao longo
dos anos, acentuando-se nas décadas de 50 e 60. A partir da década
de 30 o samba começa a deixar de ser marginalizado e passa a
ser valorizado e reconhecido pelo estado e pelas elites como uma das
mais “puras” e autênticas manifestações
da cultura popular brasileira. “O que elle nos traz é miséria, baixeza, degradação, não só individualmente mas também para a família e para a pátria. Brigas, atrapalhações, desastres, mortes, doenças.” “Não admira, porquanto, sendo o carnaval o culto a um deus pagão, um culto ao deus do mal, ao deus das orgias e da degradação, arraste os seus adoradores a scenas deprimentes (...) Toda pessoa que possua sentimentos de religião, ou ao menos de decência, e passe calmamente por certas ruas onde se realizam as taes batalhas de confetti, não pode deixar de compungir-se e revoltar-se com as scenas deprimentes que se lhe deparam (...) é um damnonso flagello moral, corrompendo a juventude e oferecendo ensejo à prostituição e immoralidade de todo gênero, incitando, aos demais disso, a embriaguez, os roubos, os assassínios, os suicídios e desastres de toda ordem, inclusive enfermidades e mortes prematuras”. Um artigo de 1929 chega a sugerir que existe uma relação entre o carnaval e a propagação da tuberculose: “O carnaval é historicamente e de facto, uma festa orgíaca, uma bacchanal, uma saturnal, uma festa de loucos (...) que os doentes do peito devem evitar. Os homens respeitáveis acreditam que elle tem influencia sobre a marcha da tuberculose”. Um outro artigo, também sobre o carnaval, sob o título Carnaval no Rio, considerado o mais bello do mundo – lenda ou patriotada – seus aspectos tristes e desgraciosos deixa evidente o tamanho do preconceito racial na época: “Pernas finas e tornas escolhem sempre calções curtos e camisetas que deixam ver pobres peitos deprimidos. Tem-se a impressão de esqueletos cobertos com uma camada laconica de pele e carne mumificada. Por outro lado, indivíduos de origem muito recente na Ethiopia, com as mesmas camisetas de meia, axillas à mostra onde parecem localizar-se ninhos de rato”. O novo papel da música popular no governo varguista A era Vargas cria uma relação
diferente entre estado e povo que tem a ver com a nova política
nacional do governo. Esta política passa a priorizar o investimento
na indústria nacional através do estímulo ao crescimento
de uma burguesia industrial nacional e do investimento estatal nas siderúrgicas
e indústrias de produção de energia e combustível,
as chamadas “indústrias de base”. O povo passa a
ser entendido como peça fundamental para o crescimento econômico
do país e as autoridades devem não só “protegê-lo
e beneficiá-lo através das leis trabalhistas, mas também
apoiar suas manifestações culturais tornando-as legítimas
e nacionalmente reconhecidas. Era, portanto, coerente e interessante
apoiar essas manifestações ligadas à cultura popular
brasileira. Em primeiro lugar, porque isso pode fortalecer o espírito
nacionalista do povo brasileiro e, conseqüentemente, a confiança
desse povo na condução tomada por Getúlio. Em segundo
lugar, porque valorizar a cultura popular legitima a imagem de “pai
dos pobres” construída pelo presidente, fortalecendo seu
papel de mediador dos interesses e direitos do povo. “O samba, depois de
civilizado, depois de subir ao trono levado pelo seu pranteado Rei,
passou por uma grande metamorfose: antigamente era repudiado, debochado,
ridicularizado. Somente a gente da chamada roda do samba o tratava com
carinho e amor! Hoje ninguém quer saber nem fazer outra coisa.
O samba já é cogitação dos literatos, dos
poetas, dos escritores teatrais e até mesmo de alguns imortais
da Academia de Letras!...”. No livro publicado em 1984, Ana Maria Rodrigues trabalha com a oficialização do carnaval, tentando mapear como esse processo se desenvolveu e compreender as suas conseqüências para o samba e para o carnaval. Para a autora, a oficialização dos desfiles das escolas de samba dá início a um processo de transformações que levam à perda da sua espontaneidade e à sua comercialização e que terão continuidade ao longo das décadas seguintes. “Os primeiros desfiles não eram oficiais. Contavam com a ajuda e com o incentivo dos jornais na sua promoção. Os prêmios, porventura existentes, também vinham dos proprietários dos periódicos. As fantasias e a organização ficavam por conta da escola. Não existia dispositivo algum, vindo do estado, que regulamentasse a forma de desfilar. As regras usadas eram criadas pelos grupos e adaptadas ou suprimidas, de acordo com as necessidades que surgiram, muitas vezes, durante o desfile”. A autora chama a atenção
para o fato de que gradualmente o carnaval deixa de ter esse caráter
espontâneo e os atores sociais envolvidos vão sendo substituídos.
Desde a sua oficialização, passa por um processo de transformações
onde deixa de ser produzido e de ter a participação efetiva
das classes populares e passa a ter um apelo comercial que atrai pessoas
pertencentes a um padrão sócio-econômico mais alto.
Outro ponto levantado pela autora e também por André Benevides
na tese de mestrado Projeto nacionalista de Getúlio Vargas se
beneficiou do samba diz respeito ao processo de embranquecimento pelo
qual o samba começa a passar desde 1930. Para Benevides, a aceitação
do gênero pela sociedade e principalmente pela elite, impõe
o seu branqueamento, que pode ser percebido na quantidade de sambistas
brancos que começam a participar do meio desde a década
de 1930. “(...) a expectativa
quanto à criatividade do componente era indiscutível.
Eram, afinal de contas, instrumentos, fantasias, músicas, ritmos,
enfim todo um processo criativo musical desenvolvido com autenticidade
e guardando fidelidade a uma cultura afro-brasileira popular”.
“Naquele tempo não se cantava samba livremente pelas ruas porque a polícia baixava o pau. Sambista era considerado vagabundo e me recordo das pancadas que recebi”. Em 1932 acontece o primeiro patrocínio pelo Jornal Mundo Sportivo. A idéia, vinda do repórter Carlos Pimentel, foi dedicar uma matéria do jornal a entrevistas com os então desconhecidos sambistas ou outras pessoas ligadas às escolas. Esse primeiro concurso, para o qual Pimentel esboçou um arremedo de regulamento , evidencia ainda uma dose de improviso: “Na Praça Onze, num coreto feito por nós, pois não havia dinheiro no jornal, arrumamos cerveja, sanduíches de mortadela e outros salgadinhos. Foi Álvaro Moreira, foi sua mulher Eugênia, foi Orestes Barbosa e foram mais uns outros que fizeram parte do primeiro júri”. Como nesse ano o desfile participa do noticiário local, podemos considerar que, a partir daí as escolas começam a ganhar visibilidade em relação à sociedade mais ampla. Data também 1932 o ano em que os jornais, sob a justificativa da sua oficialização, começam a esboçar um interesse em atrair turistas para o carnaval: “Faz-se este anno a oficialização do Carnaval com o fim patriótico e utilitário de atrair turistas à famosa cidade guanabarina”. É a primeira vez também que se tem notícia de uma comissão julgadora, composta por pessoas pertencentes à classe média “esclarecida” e com interesse em cultura popular. Como Monique Augras chama a atenção, a divulgação pela imprensa unida à idéia das escolas concorrerem entre si e à premiação, que precisaria de patrocínio, abre caminho para a instituição de normas e para o controle dos desfiles. “Do ponto de vista do controle social, os concursos são sem dúvida eficazes. Premiar o desempenho de determinado grupo permite reforçar padrões de representação e dissuadir outros grupos de seguir rotas desviantes. Sob a aparência de valorizar a produção desses grupos, o concurso institui uma hierarquia de valores, estéticos alguns, ideológicos quase todos, que, ao legitimar certas atuações e desqualificar outras, acaba assegurando a manutenção de um modelo estável e de fácil fiscalização. E o primeiro passo para tanto é a regulamentação do desfile”. Bernardo Marques da Costa, carnavalesco e presidente do Recreio da saúde declara em entrevista ao Jornal do Brasil que a oficialização, em 1932 trouxe burocratização e afastou os foliões das suas comunidades. Elege a oficialização como um dos elementos responsáveis pela decadência do carnaval que, para ele está a cada ano mais desanimado. “... Para falar com franqueza, desde 1930, mais ou menos, o que se tem visto é nada em relação aos festejos passados. Fracos desfiles, pouca animação, enfim, um horror!”. Em 1933 o desfile é
patrocinado pelo Jornal O Globo, que estabelece a lista de quesitos
a serem usados pela comissão julgadora, composta, como no ano
anterior por jornalistas e intelectuais. São selecionados quatro
quesitos: poesia do samba, enredo, originalidade e conjunto. De acordo
com Marília da Silva e Lygia Santos , o carnaval desse ano foi
muito importante porque o desfile das escolas passou a ter uma estruturação
interna e a fazer parte do programa oficial elaborado pela Prefeitura
do Distrito Federal e pelo Touring Club, chegando a haver a liberação
de uma pequena ajuda em dinheiro para as escolas pelo prefeito Pedro
Ernesto. Este é também o ano em que se inicia a idéia
do samba coincidir com o enredo, pois é nesse desfile que aparece
o primeiro samba-enredo da história, apresentado pela Unidos
da Tijuca. “... um dos preços a pagar para obter o apoio oficial e o reconhecimento social era a perda da espontaneidade. A ordem vinha-se sobrepondo à desordem, e o samba-enredo, atrelado à temática do desfile, seria um dos produtos dessa tendência padronizadora.” Para alguns sambistas as novas regras são vistas como apoio, devendo ser aceitas pela categoria, que ao invés de “reclamar” deveriam se aliar ao estado colaborador para fazer do carnaval uma “grande” festa da qual a nação teria orgulho. É importante deixar claro que o processo de oficialização e de imposições de regras não é unilateral. Seria uma visão maniqueísta eleger o estado responsável por todas as transformações sofridas pelo carnaval. Muitos sambistas apoiaram e contribuíram muito para a regulamentação, para as ajudas financeiras e para a divulgação dos desfiles, pois queriam que seu carnaval se tornasse uma festa grandiosa e reconhecida nacionalmente. Já havia nessa época relações entre segmentos do governo, policiais e o pessoal do samba, de onde saiam vários tipos de acordos interessantes para ambos os lados. Ao manifestar sua adesão ao nacionalismo e apresentar-se como interlocutora capaz de congregar massas populares, as escolas de samba consolidam o relacionamento entre morro e poder público, assumindo as feições do clientelismo populista. “A tolerância e mesmo a benevolência com que a prefeitura do Rio de Janeiro demonstrou então para com as escolas de samba sem dúvida decorreu destas circunstâncias. Inúmeros testemunhos se referem às verdadeiras transações que se operaram entre fundadores de escolas de samba, chefes de polícia em diversos níveis, candidatos a vários postos, altos funcionários em busca de prestígio. Destes solicitavam os fundadores das escolas melhores privilégios para elas, contra certo número de votos no momento das eleições; e obtiveram o que desejava”. Neste cenário, a mítica
figura de Paulo Benjamin de Oliveira, o Paulo da Portela (1901-1949)
– responsável, entre outras coisas, pela introdução
das alegorias nos desfiles da escola de samba que lhe emprestou o nome;
e pela fundação, em 1934, da primeira entidade de organização
oficial dos sambistas, a União Geral das Escolas de Samba –
representa o desejo sempre latente– ora controlado pelo grupo,
ora francamente manifesto – dos sambistas e de suas comunidades
de se aproximarem das camadas mais enriquecidas da população.
Paulo da Portela, ao longo de sua trajetória, desempenhou sempre
o papel de embaixador do mundo do samba e do carnaval, sendo inclusive
eleito, sintomaticamente, o primeiro “Cidadão Momo”,
em 1936, num tipo de concurso que mais tarde se desdobraria em outros
dois, o de “Rei Momo” (com o biotipo que lhe é peculiar,
o que não era seu caso) e o de “Cidadão Samba”
(em que são premiadas figuras de destaque do mundo artístico
e, mais recentemente, os “mecenas” do desfile, bicheiros
e figuras de sociedade). Vale lembrar, ainda, que Paulo da Portela aparece,
quase sempre sem o devido crédito, na célebre fotografia
que mostra o desenhista norte-americano Walt Disney, em visita agendada
pela Política da Boa Vizinhança (que recomendava uma presença
maior, através de mecanismos diplomáticos, da cultura
e da política norte-americana no restante do continente, com
abertura inclusive para influências em sentido contrário),
na quadra da Portela assistindo um passista, criança e negro,
desfilar seu talento, o que pode dar a medida do nível de influência
e representatividade de que gozava o artista na ocasião, e dos
apoios que devia arrecadar com isso. Se a turma lá do morro O controle que passa a ser exercido sobre a população brasileira a partir das mudanças ocorridas nos rumos políticos do país que culminaram na Ditadura do Estado Novo atinge também a música brasileira. Essa liberdade de crítica tem, portanto, um curto tempo de vida. A interrupção da liberdade pode ser explicada basicamente por dois motivos. Primeiro porque o estado se aproveita do novo produto criado – o samba – e da força da comunicação de massa da música popular para usá-la como instrumento de propaganda política. Um exemplo disso é a criação do programa A Hora do Brasil, com caráter de transmissão nacional obrigatório que divulgava sambas e marchas nos intervalos das notícias: “Ao governo de Getúlio Vargas não escapou, sequer, o papel político que o produto música popular poderia representar como símbolo da vitalidade e do otimismo da sociedade em expansão sob o novo projeto econômico implantado com a Revolução de 1930: ao criar em 1935 o programa informativo oficial chamado“A Hora do Brasil”, o governo fez intercalar na propaganda oficial números musicais com os mais conhecidos cantores, instrumentistas e orquestras populares da época...” Como podemos perceber, o rádio passa a ser usado para divulgar as músicas de carnaval. Além disso, vale destacar também o advento dos discos que acontece paralelamente ao do rádio e que, para muitos críticos, representou o fim do sucesso espontâneo das músicas, pois este passa a ser dirigido de acordo com os interesses do governo: “A evolução do rádio começava a atrapalhar a pureza do sucesso musical. Os primeiro discotecários, porém, ainda giravam o prato na base da amizade. Os alôs cinematográficos já contribuíam para a mecanização do carnaval (...) Em 1939, talvez o último grande carnaval livre do sucesso orientado, tivemos Florisbela, de Nassára e Frazão; A jardineira de Benedito Lacerda e Humberto Porto (...) Daí por diante, ninguém explicou mais nada. O disco passou a girar a tanto por vez...” “Como não havia rádio, o povo tomava conhecimento das músicas lançadas em, cada ano nas festas das grandes sociedades, nas casas de músicas (os que iam comprar partituras para piano) e nas festas populares, principalmente na Penha.” Getúlio Vargas foi o primeiro presidente brasileiro a montar uma máquina de propaganda para promover o seu governo. Para isso, nada mais estratégico do que usar a música popular. E essa propaganda não tem nível só nacional. Como destaca José Ramos Tinhorão no livro O samba agora vai, a propaganda de Vargas também é dirigida para outros países já antes da ditadura: “O futuro ditador Getúlio
Vargas compreendeu essa verdade ainda antes da implantação
do chamado Estado Novo. De fato, quando em 1935 o então presidente
Getúlio Vargas resolveu retribuir as visitas ao Brasil dos presidentes
Augustín Justo, da Argentina, e Gabriel Terra, do Uruguai, a
sua comitiva incluía, pela primeira vez na História, um
grupo de artistas de música popular. Esses artistas, encarregados
de dar cobertura à simpatia do sorriso do presidente, através
da mensagem otimista de um povo alegre, e efuziante de vida e de ritmo,
eram, nada mais, nada menos do que a cantora Carmen Miranda (...) e
o conjunto intitulado Bando da Lua...” Samba: comercialização,
saudosismo e idealização do passado Não era assim Assim como na década de 40 Wilson Batista refere-se ao samba dotado de glória e beleza como privilégio do passado, já na década de 30, entre os primeiros livros escritos sobre o assunto, Francisco Guimarães, o Vagalume, também assume uma postura de exaltação ao passado. Em seu livro “Na Roda do Samba” o autor elege aqueles que podem ser considerados sambistas e o “restante”, que se inclui na categoria de “sambestros”. Para tal classificação, utiliza-se de critérios que valorizam o samba “chulado”. Apesar de não reconhecer sua autenticidade, atribui a esse samba um caráter de superioridade, estabelecendo diferenças hierárquicas entre as diferentes fases. Partindo do princípio da hierarquia, apresenta uma idéia evolucionista do samba, demonstrando como se deu seu progresso ao longo dos anos, até chegar no seu estado “perfeito”. Ocorre nesse momento uma inversão de valores por parte do autor, que ao contrário do senso-comum não enaltece as raízes do samba. Ao invés disso elege um período de ápice do gênero, que seria por volta das décadas de 10 e 20, onde teria ocorrido seu desenvolvimento melódico e poético, para depois então iniciar-se sua decadência, sua comercialização e conseqüente descaracterização, permanecendo apenas alguns fiéis ao gênero, os chamados sambistas. “Havemos de convir que há muita diferença da gente do outro tempo para a de hoje (...) Antigamente, o samba primava pela originalidade da letra e música, que jamais se afastavam do ritmo, ao passo que, hoje o que mais se observa é o plágio com o maior descaramento (...) Lançado um samba, passado nas Escolas do Estácio e do Catete, ele era cantado por toda parte, sem que o seu autor tivesse a menos pretensão nem pensasse em lucros. Hoje, o que inspira os sambistas e sambestros é a ambição do ouro”. Vagalume enaltece a produção dessa época, destacando o fato de até então o samba ser produzido no morro, por homens simples e sem objetivo comercial. Condena o objetivo de lucro e o processo de industrialização pelo qual passa a música brasileira na década de 30, identificando a reprodução de sambas em disco, ou seja, a sua comercialização e o acesso livre de pessoas não pertencentes às suas “raízes” como a grande causa da desqualificação do gênero. “O samba é hoje uma das melhores indústrias pelos lucros que proporciona aos autores e editores. Antigamente os sambas surgiam na Favela, no Salgueiro, em São Carlos, na Mangueira e no Querosene, que eram os “morros-Academias” onde se abrigavam os mestres do pandeiro, do chocalho, do reco-reco, da cuíca, do vilão, do cavaquinho e da flauta.” Sob outro ponto de vista, José Ramos Tinhorão também enfatiza as mudanças estruturais ocorridas com o samba e com o carnaval a partir da segunda metade do século XX, associando essas transformações ao processo de comercialização de ambos. Segundo o autor acontece, desde a década de 20, um deslocamento do povo do Estácio para a Praça Onze . “Durante o Carnaval, essa gente do Bairro do Estácio ia engrossar a grande concentração de foliões da Praça Onze (onde desde a segunda década do século XX se concentrava a massa dos mais pobres, depois que a elite dos trabalhadores levou seus ranchos a desfilarem para o público de classe média na Avenida Rio Branco)”. Esse novo “formato”
dado ao carnaval – onde a área dos blocos e escolas passam
a ser limitadas por cordões de isolamento – cria a necessidade
de um andamento mais solto, pelas ruas, da massa dos foliões
comprimidos dentro das cordas de segurança . Para propiciar esse
andamento mais solto e mais rápido a turma do Estácio
introduziu na seção de pancadaria o surdo de marcação.
E essa nova forma de conduzir os desfile é o princípio
de uma série de mudanças que acontecerão com o
gênero de agora em diante, começando pela criação
do samba urbano, depois conhecido como samba carioca, que representa
um afastamento definitivo do velho modelo do partido alto dos baianos
e uma nova fase para o carnaval e para o samba no cenário nacional. “Transformada, assim, em artigo de consumo nacional vendido sob a forma de discos, e como atração indispensável para a sustentação de programas de rádio (inclusive com público presente, no caso dos programas de auditório) e do ciclo de filmes musicados mais tarde preconceituosamente conhecidos como chanchadas carnavalescas, a música popular brasileira iria dominar o mercado durante todo o período de Getúlio Vargas – 1930-1945 –, em perfeita coincidência com a política econômica nacionalista de incentivo à produção brasileira e ampliação do mercado interno”.
O samba, o carnaval e a classe média: Apropriação e transformação Como vimos no capítulo anterior, as décadas de 1930 e 1940 marcam o início do processo de comercialização e elitização do samba e do carnaval carioca. Acontece que, a partir da década de 1950 esse processo toma uma nova dimensão, passando a haver um interesse por parte de intelectuais, artistas e estudantes de esquerda pela cultura popular. O surgimento desse novo interesse terá, para o samba e para o carnaval, conseqüências que vão desde o agravamento de sua comercialização e elitização – mesmo que não intencional – até efetivas interferências na sua forma. É importante compreender que essa aproximação faz com que os simples “participantes” do ambiente que gira em torno do samba e do carnaval deixem de ser meros espectadores ou consumidores, passando a exercer participação efetiva, que levará, um pouco adiante, à modificação da sua estrutura. Isso fica muito claro na letra do samba Modificado, de autoria de Padeirinho (1927-1997), antigo sambista do morro da Mangueira que chegou, inclusive, a participar do espetáculo O samba pede passagem, no Teatro Opinião do Rio de Janeiro, em 1970. A referida música aborda as transformações que o gênero sofre com o advento da Bossa Nova – o que fica evidente quando ele cita o cantor e violonista João Gilberto, “o desafinado” – como equivocadamente era chamado na época, por conta de um de seus maiores sucessos, a canção homônima de Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça. È importante lembrarmos que esta é a visão de um sambista considerado “tradicional” e “autêntico” que não trata as mudanças ocorridas com o samba como causas da sua decadência e descaracterização: Vejo o samba tão modificado Gosto de um samba ritmado
pra sambar Para alcançarmos
um entendimento mais claro desse processo é importante, em primeiro
lugar, traçar um quadro geral da situação política,
social e cultural do país nos anos anteriores ao citado. “A cultura norte-americana invadiu o país. A literatura, as revistas, a cinematografia. Tom gostava de assistir aos filmes musicais norte-americanos. Chegando do cinema, cantava as trilhas sonoras em casa e para os amigos. Vieram os luxuosos cigarros com suas charmosas propagandas. Também os enormes e confortáveis automóveis”. Da mesma forma que se passa a atribuir um caráter ultrapassado aos produtos nacionais, a cultura e a música brasileira tocada nas rádios da época é identificada pelos jovens ao passado e suas letras e arranjos são vistas como ultrapassadas, devendo-se, portanto buscar algo inovador, que não fosse a simples reprodução da música americana. “Estavam tais jovens de nível universitário nessa preocupação de encontrar uma saída para o samba – que acusavam de quadrado e, de parado em sua evolução só saber falar de morro e barracão”. A música tocada e
produzida no Brasil também sofre influência dessa valorização
do importado em detrimento do nacional. Até a década de
1940, o samba-canção foi bastante gravado e tocado nos
rádios. Não sendo ainda um gênero com definição
clara, o samba-canção servia para designar várias
músicas. Sambas como Jura de José Barbosa da Silva, o
Sinhô, Último Desejo, de Noel Rosa e até mesmo os
mais sincopados como Amigo Leal, de Benedito Lacerda e Aldo Cabral eram
designados e gravados como samba canção. Porém,
na década de 1940 o sucesso dessa música é esmagado
pela música norte-americana. Podemos verificar isso, por exemplo,
na adesão dos jovens brasileiros da época ao rock’n
roll. A música norte-americana conquistou os rádios e
consagrou, principalmente entre a classe média, não só
o rock, mas também o foxtrote, o jazz, o blues tornando compositores
como Cole Porter, Glenn Miller e George Gershwin famosos entre os brasileiros. Não posso mais, ai
que saudade do Brasil Eu digo adeus ao boogie woogie,
ao woogie boogie “Com um único disco, ele se tornara a resposta nacional às preces de uma boa parcela de brasileirinhos do pós-guerra, apaixonados pelas bandas de swing, pelos crooners e pelos conjuntos vocais americanos. Para esses jovens – cuja única restrição a Carmen Miranda era a de que ela não voltara suficientemente americanizada –, o mundo não era um pandeiro, mas as sofisticadas harmonias de Axel Stordahl para os discos de Sinatra na Columbia.” E Dick Farney não
foi o único cantor da época que trocou seu nome por um
outro de apelo claramente norte-americano. O grande pianista da Bossa
Nova, conhecido como Johnny Alf é registrado com um nome caracteristicamente
brasileiro: Alfredo José da Silva. Como podemos perceber havia,
por parte desses jovens, uma repulsa à cultura brasileira e uma
valorização da cultura estrangeira, com destaque para
a norte-americana. Isso pode ser evidenciado não só nos
nomes que adotaram, mas nos repertórios tocados nas boates (em
sua maioria repletos de música americana), no jeito de cantar,
de tocar e, inclusive, nos instrumentos selecionados pelas bandas, como
o piano e o saxofone. “Os compositores das camadas mais baixas do Rio de Janeiro, é claro, continuavam a produzir belos sambas-canções (Cartola e Nélson Cavaquinho, por exemplo jamais deixaram de compor durante aquele período), mas como as suas músicas não chegavam a ser gravadas, a nova geração de jovens de nível universitário da década de 50 acreditou que a canção tradicional tinha esgotado as suas possibilidades, e partiu para a reformulação de inspiração jazzística do samba, que se chamaria bossa nova.” Diante de todo esse contexto surge, na década de cinqüenta , no Rio de Janeiro, um grupo de jovens de boa situação financeira que, cansados da importação pura e simples da música norte-americana se propõe a “modificá-la”, fazendo samba em ritmo de jazz. O auge dessa idéia é, simplesmente, a invenção da Bossa Nova – que tem como marco o ano de 1958 – quando um grupo desses rapazes da zona sul resolve romper definitivamente com a herança do samba popular, para modificar o que lhe restava de original, ou seja, o próprio ritmo. “... cansados da importação pura e simples da música norte-americana, resolveram também montar no Brasil um novo tipo de samba, à base de procedimentos da música clássica e de jazz,d e vocalizações colhidas na interpretação jazzística de cantores como Ella Fitzgerald e de uma mudança da temática para o campo intelectual mais identificado com os componentes do grupo, ou seja, a poesia erudita (o que explica o sucesso do poeta Vinícius de Moraes como letrista).” Fazia parte desse grupo basicamente
Roberto Menescal, Carlos Lyra, Ronaldo Bôscoli, Nara Leão,
Luis Carlos Vinhas e os irmãos Castro Neves, reunidos à
volta de um mesmo ideal: encontrar uma saída para o samba. E
foi assim que, por volta de 1956, começaram a se encontrar no
apartamento de Nara Leão, a princípio aluna de violão
de Ronaldo Bôscoli, para realizar os samba sessions, ou seja,
a execução de sambas em estilo jazzístico com total
liberdade de improvisação. De acordo com Ruy Castro, o
que acontecia na casa de Nara Leão, localizada no edifício
Palácio Champs-Elysées, na Avenida Atlântica, eram
reuniões de violão, embora houvesse, algumas vezes, acompanhamento
de trompete e de contrabaixo, acentuando a natureza jazzística
destes encontros. “As universidades abriram
seus campi para a nova música. Era discutida apaixonadamente
pelos estudantes A juventude foi imediatamente contagiada. Depois de
muito tempo aparecia uma música inteiramente brasileira, com
uma nova estética, que correspondia aos seus sentimentos (...)
E os talentos musicais da classe média também se manifestaram
em todo país...” João Gilberto, o violão e o samba de Bossa Nova A idéia de inovar
o samba, mudando a forma de cantar e tocar torna o violão o instrumento
básico de estudo e experimentação. Nesse sentido,
essa geração contribui para a desconstrução
de preconceitos enraizados, como por exemplo, a concepção
por parte da elite brasileira de que o violão seria um instrumento
“baixo”, ameaçador da ordem social, associando-o
à cachaça, prostituição e à malandragem
da Lapa, responsável pela criação de mitos como
os de Madame Satã e Wilson Batista. “Cantava agora mais baixo, dando a nota exata, sem vibrato, estilo Chet Baker, que era a coqueluche da época. O que o impressionou foi o violão. Aquela batida era uma coisa nova. Produzia um tipo de ritmo em que cabiam todas as liberdades que se quisesse tomar. Era possível escrever para aquela batida. Com ela, adeus à ditadura do samba quadrado, do qual a única saída até então era o samba-canção.” Mas o caminho para se chegar
à batida desejada foi longo e as experimentações
individuais e solitárias. João Gilberto chegou até
mesmo a se enclausurar em um banheiro – que tinha a acústica
ideal – para tentar encontrar o ritmo que procurava. E encontrou
exatamente o ritmo do violão que simplificava a batida do samba
– como se ele tocasse só com os tamborins –, mas
que era flexível o suficiente para acompanhar qualquer tipo de
música.
O repúdio às
características populares originais da música brasileira
que convivia de maneira harmônica e coerente com a louvação
ao jazz ficaria restrita à primeira geração da
Bossa Nova. Como veremos, começa a haver, a partir da década
de 1960 um movimento por parte de músicos, intelectuais e estudantes
de esquerda em torno do “resgate” e valorização
das verdadeiras origens da cultura popular brasileira. “É o período dos cadernos do povo, do violão de rua, do início da publicação no Brasil de alguns autores marxistas críticos. Porque, até então, a cultura marxista no Brasil estava sob controle do PCB”. (p. 67). RIDENTI A fundação
do Centro Popular de Cultura é um exemplo dessa autonomia cultural
de esquerda que se configura no país em relação
ao PCB. Entre seus componentes estavam Ferreira Gullar, Oduvaldo Vianna
Filho, Paulo Pontes e Carlos Lyra, representando a literatura, o teatro
e a música. A proposta principal do grupo era “resgatar”
as “raízes” da “autêntica” cultura
nacional-popular. Por muitos a imposição de se produzir
uma arte para o povo, politizada é vista como uma espécie
de pressão, sendo alvo de crítica de diversos artistas
e intelectuais que inclusive faziam parte do movimento cultural ligado
a ele. A crítica mais dura vem de Leandro Konder ao afirmar que
o CPC nasceu sectário. Para ele, o projeto foi desenvolvido por
um grupo de comunistas, respeitado, mas que fazia um trabalho maniqueísta,
de divisão entre a arte popular, a arte para o povo e a arte
revolucionária, sendo só a última legítima
e as outras alienadas . Outra figura que discorda das diretrizes tomadas
pelo movimento é Ferreira Gullar, que reconhece um grande erro
do CPC: vincular o trabalho de escritor à conscientização
política, só reconhecendo como “bom”o que
seja capaz de atingir as massas. Para o escritor a postura do Centro
Popular de Cultura inviabilizou trabalhos de qualidade artística
desligados da política e sacrificou os valores estéticos
da arte, levando o movimento a não produzir um bom teatro e nem
uma boa literatura. A ação política aparece quase
como uma obrigação do artista, levando muitos deles a
se aproximarem de propostas nacionais-populares. “Nós fundamos um Centro Popular de Cultura da União dos Estudantes. E ali cada um tinha uma função. O Vianinha era responsável pela parte de teatro, o Ferreira Gullar pela literatura e eu pela parte de música. Nós procurávamos coisas para fazer a arte popular, levar a arte do povo para a burguesia. No caso da música esse objetivo foi atingido com sucesso. Consegui levar grandes sambistas do morro como Cartola, Nelson Cavaquinho e Zé Keti para o CPC. E levei ainda o João do Vale, que era a contrapartida rural. Depois eu tive a idéia, por achar que também seria válido, de fazer o contrário; levar a arte da burguesia para o povo. Tanto que nós fizemos vários shows de Bossa Nova na rua” A produção
cinematográfica e teatral também merece destaque diante
do contexto de aproximação entre a esquerda e a cultura
popular. Nesse momento, o cinema brasileiro – mais especificamente
o Cinema Novo – tinha como objetivo principal buscar as raízes
do autêntico homem do povo e da verdadeira identidade nacional
brasileira. A tendência geral desse movimento foi a de encontrar
no sertanejo simples e no migrante nordestino – arquétipos,
respectivamente, da vida rural e de seu sucedâneo urbano –
como podemos verificar, por exemplo, em Deus e o Diabo na terra do sol
(Glauber Rocha, com música do compositor Sérgio Ricardo,
representante da segunda geração da bossa-nova, justamente
a mais identificada com a assim chamada “questão social”)
e Cabra marcado para morrer. Podemos destacar ainda, a esse respeito,
roteiros que buscavam desvendar “reservas de autenticidade”
nos moradores da favela e do subúrbio carioca – muito bem
representados em atuações como a de Zé Kéti
(que, ao lado de outros artistas, como Cartola, era ator contumaz de
filmes do movimento) em Rio, Zona Norte.
Em relação
à música, José Ramos Tinhorão defende que
a idéia de se aproximar do povo tem como causa o fracasso da
tentativa de sucesso da Bossa Nova do exterior, o que, de acordo com
ele pode ser confirmado pelo fracasso do Show no Carnegie Hall e pela
constatação de que o disco mais vendido de Bossa Nova
no exterior foi o do norte-americano Stan Getz . Tanto o modelo explicativo
quanto a afirmação de José Ramos sobre o Show no
Carnegie Hall são alvo de discussão e discordância.
Em relação à justificativa – de que os envolvidos
teriam se aproximado da arte popular a partir do fracasso da Bossa Nova
no exterior –, ela é bastante complicada, uma vez que a
ruptura de Carlos Lyra com a Bossa Nova “elitista” e “alienante”
teria se dado em 1960, enquanto o primeiro show de Bossa Nova no exterior,
exatamente o citado anteriormente, aconteceu em novembro de 1962. Talvez
o caminho mais adequado para entendermos os motivos que levaram um grupo
de classe média, ligado à bossa nova a se interessar por
cultura popular esteja na compreensão do momento político
e social do Brasil na época. Os anos JK marcam, de um lado, um
sentimento nacionalista estimulado pelo rápido crescimento econômico
e pela modernização. De outro, temos uma invasão
de produtos estrangeiros, com exemplo máximo para a indústria
automobilística, o que, certamente, provocou uma reação
da juventude no sentido de valorizar e buscar uma identidade nacional,
seja nas questões que envolvem a política, seja na cultura.
A revolta diante do excesso de informações culturais estrangeiras
e o inconformismo em relação às modificações
impostas ao samba pela bossa nova, influenciada pelo jazz, tem como
resultado letras de música como Influência do Jazz, composta
por Carlinhos Lyra em 1961. Pobre samba meu Pobre samba meu Tinhorão tem ainda
uma outra explicação para o desejo dos “meninos”
de classe média de se aproximarem da cultura popular. Para ele,
a incapacidade de absorver, no seu quadro econômico, as primeiras
gerações de profissionais revelada pela política
desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek unida à falta de perspectiva
de ascensão sócio-econômica levou muitos estudantes
a uma atitude de participação política e de preocupação
com as condições sociais do povo brasileiro. “O que ele contou revelava apenas a desorganização do espetáculo ou o nervosismo de alguns dos participantes (...) com sua vasta munição verbal, pintou a coisa de ridículo e definiu-a como um fracasso dos músicos brasileiros na sua tentativa de parecer esforçados imitadores da música americana.” A aproximação entre os estudantes ligados à esquerda e os sambistas de morro torna-se mais efetiva e séria a partir de 1962, quando Carlinhos Lyra e Nelson Lins de Barros iniciam um trabalho de pesquisa com esses compositores – entre eles Cartola, Zé keti e Nelson Cavaquinho – com intuito de, futuramente, compor em parceria com eles. Essa tentativa, segundo Tinhorão foi um fracasso porque havia divergências em relação à linguagem musical, o que tornava as parceiras incompatíveis. Esses encontros, que aconteceram no apartamento que Carlos Lyra dividia com Nélson Lins, em Copacabana, marcaram o lançamento de Cartola e Nélson Cavaquinho – Zé keti já era aceito e conhecido desde sua participação nos filmes Rio, 40 graus e Rio Zona Norte – como representantes oficiais do samba verdadeiro entre a classe média. “Os acordes compactos, à base de dissonâncias, do violão bossa nova não se casavam com a baixaria do violão de Cartola, e muito menos com a quase percussão de Nélson cavaquinho, que beliscava as cordas numa acentuação rítmica das tônicas absolutamente pessoal.” Diante da tentativa frustrada, Nara Leão, que também havia rompido com a bossa nova “elitista” e “alienante”, aparece com uma nova proposta: reproduzir o samba dos compositores da favela em ritmo de bossa nova. No seu disco Nara, gravado em 1963, a cantora troca a temática do mar e do amor por músicas que falavam de favela. Grava Diz que vou por aí de Zé Kéti, O sol nascerá parceria de Cartola e Elton Medeiros e Luz Negra, de Nelson Cavaquinho. O próximo disco gravado pela cantora Opinião de Nara significa uma ruptura definitiva com a bossa nova quando declara em entrevista à revista Fatos e Fotos: “Chega de Bossa Nova. Chega de cantar para dois ou três intelectuais uma musiquinha de apartamento. Quero o samba puro, que tem muito mais a dizer, que é a expressão do povo, e não uma coisa feita de um grupinho para outro grupinho (...) Na Bossa Nova o tema é sempre na mesma base: amor-flor-mar-amor-flor-mar, e assim se repete(...) Não quero passar o resto da vida cantando Garota de Ipanema e, muito menos em inglês. Quero ser compreendida, quero ser uma cantora do povo.” Apesar das declarações de Nara Leão deixarem clara sua intenção de representar o “povo” e de cantar samba, o disco Opinião de Nara mostra exatamente o contrário. Acompanhada por Erlon Chaves ao piano, Tião Neto no contrabaixo, Edison Machado na bateria e Edu Lobo no violão, o disco, nas palavras de Ruy Castro é “tão bossa nova quanto qualquer outro”. Portanto, como já falamos anteriormente, o que acontece é a apropriação de um gênero popular por músicos com outras referências de ritmo, de arranjo e de composição. Ao executar os sambas selecionados, irão, logicamente adequá-los ao estilo “bossa nova”. E é assim que essas músicas são gravadas pela primeira vez e tornam-se famosas entre as diferentes camadas sociais, passando a ocupar um novo espaço na indústria fonográfica, a terem respaldo, aceitação e a serem respeitadas pelas classes privilegiadas. A incorporação do samba pela elite, assim como as mudanças que essa nova realidade impõe ao gênero aparecem em muitas letras de samba, como uma crítica ou mesmo um apelo à sua descaracterização. Samba Mudaram A crítica aparece também com certa dose de ironia, como na música ???? de ?????? O samba agora vai Antigamente o samba era um
coitado Mexe com ele que tu vai até em cana... Alguns músicos da
Bossa Nova se opunham à adesão daqueles jovens à
arte popular. Achavam tudo aquilo artificial e incoerente com o passado
ao qual haviam se dedicado. Entre estes estavam Ronaldo Bôscoli,
Sylvinha Telles, Roberto Menescal e Aloysio de Oliveira que declarou
“Não sei qual é o povo de Nara (...) Garota de Ipanema
é música para todos. Quer queira, quer não, ela
é uma típica cantora de apartamento (...) que deseja se
passar pelo que não é.” Se alguém disser que
teu samba O samba pode ser feito Mas é que é
tempo de ser diferente “Temos que fazer música participante (...) Os militares estão prendendo, torturando. A música tem que servir para alertar o povo”, do qual escuta: “Em primeiro lugar, não acredito em nada disto, em segundo lugar, música não foi feita para alertar coisa nenhuma. Quem alerta é corneta de regimento”. Nara Leão não desiste das suas propostas e declara briga aos defensores da bossa nova “pura” e “autêntica” quando estréia o Show Opinião , uma tentativa de conscientizar as classes médias brasileiras sobre as condições de vida do povo brasileiro. Para isso, levaram ao palco um representante da favela carioca, Zé Kéti; a contrapartida rural, João do vale, que expressava a miséria nordestina e Nara Leão, a “pobre menina rica” da zona sul carioca. Tanto a criação do Centro Popular de Cultura da UNE quanto o sucesso do Show Opinião representam a necessidade dessa juventude de se aproximar da arte do povo e de conscientizar o brasileiro a respeito da realidade sócio-econômica do país, como podemos verificar no discurso de Nara Leão ao público: “Ando muito confusa sobre as coisas que devem ser feitas na música. Mas tenho uma certeza: a de que a canção pode dar às pessoas algo mais que distração e deleite. A canção popular pode ajudá-las a compreender melhor o mundo em que vivem e a se identificar num nível mais alto de compreensão.”
Depois que se apagou a gambiarra Todas essas mudanças
impostas ao samba a partir da Bossa Nova, unidas ao intercâmbio
cultural que vimos configurar-se entre os músicos da zona sul
e os sambistas de morro e ao desejo por parte de estudantes e intelectuais
de se aproximar da música popular – do qual o CPC e o Show
Opinião são a expressão máxima – irão,
obviamente, influenciar e transformar também o desfile das escolas
de samba. Esse fenômeno pode ser explicado da seguinte forma:
A Bossa Nova é, em grande parte, responsável pela aceitação,
sucesso e reconhecimento que o samba passa a ter perante a sociedade,
o que, obviamente leva classes sociais anteriormente desligadas do carnaval
e de toda a sua tradição e identidade cultural a se aproximarem
da festa que melhor representa o gênero agora consagrado: o desfile
das escolas de samba. Assim, da mesma forma que os “meninos da
Bossa Nova” teriam exercido modificações significativas
no samba tradicional, que para essa geração era antiquado
e ultrapassado, outras categorias sociais exercem esse papel de interferência
no interior das escolas. “... pela aceitação
conseguida e pela corte que lhe fazem, hoje, gente e instituições
de esferas cada vez mais amplas elas chegaram à dimensão
de um verdadeiro símbolo nacional. Tudo isso, entretanto, fez
com que os verdadeiros sambistas, principalmente os veteranos e os mais
conscientes do processo, ficassem marginalizados na medida em que buscavam
nas escolas significados sociais e culturais que elas só ofereciam
quando eram realmente expressão inconfundível do mundo
do samba.” “A longo prazo, essas mudanças serviram como meio de a sociedade dominante penetrar totalmente nestas modificações. Seus conceitos e critérios foram paulatinamente introduzidos e passaram a influenciar e a dominar inteiramente os desfiles. O ideal de luxo, sofisticação e gigantismo exacerbado passou a dominar tais reuniões. A descaracterização foi tão completa que, de associações espontâneas de manifestação cultural, as escolas tornaram-se cada vez mais verdadeiros tipos de organização com modelo de empreendimento comercial.” A comercialização e transformação do carnaval em espetáculo Os tempos idos nunca esquecidos Este samba, composto por
Cartola em 1974 expressa uma preocupação acerca da descaracterização
e do exibicionismo que passam a ser submetidos o samba e o carnaval
desde a aceitação e incorporação de ambos
pelas classes privilegiadas. Ao descrever a trajetória do samba,
Cartola tenta mostrar a transformação do carnaval num
espetáculo, que teve como causa o estreitamento da ligação
entre a elite e o samba e como conseqüência a perda da sua
identidade. Para o compositor o samba foi submetido a profundas transformações,
tanto na sua estrutura quanto na sua essência e no seu propósito,
afinal, como diz a música: o samba “já não
pertence a Praça, já não é samba de terreiro,
vitorioso ele partiu para o estrangeiro”. “A Salgueiro é responsável pela introdução da coreografia e das grandes alegorias nas escolas de samba. Também no Salgueiro é que começaram a aparecer os primeiros artistas de outras camadas sociais, que passaram a fazer das escolas de samba um meio de promoção pessoal”. A classe dominante, obviamente aprovou as modificações, principalmente os setores que tentavam legitimar sua inserção nas escolas de samba: “Coube ao Acadêmicos
do Salgueiro, em 1960, na gestão de Nelson de Andrade, revolucionar
a estrutura das escolas de samba, ao introduzir inovações
como: coreografia contada (alguns dizem marcada), dinamizando na concepção
dos enredos, figurinos mais livres e modernos, teatralizando no todo
da escola pela criação dos espetaculares shows ambulantes
(...) Todas estas alterações – que sem dúvida
viriam dar nova vida às escolas de samba, foram fruto de um trabalho
de artistas de cultura erudita que encontraram nas escolas de samba
um campo propício para o desenvolvimento de suas concepções
de arte.” “O que acontece é
que nós estamos condicionados, inclusive os especialistas, a
olhar o carnaval como se fosse centro da cidade. Todo mundo, assim,
deixa de olhar as manifestações que estão ocorrendo
aqui mesmo em São Paulo (...) Nós estamos olhando só
o aspecto de carnaval enlatado oferecido ao turista num carnaval regulamentado
, que deixa de ser carnaval e se transforma numa revista cíclica
anual.” “Ele era uma figura normal, que trabalhava o ano inteiro (...) e saía no carnaval, por exemplo, de cartola, de casaca, cueca, meias, ligas e sapato de verniz. Ele colocava nas costas um cartaz com dizeres engraçados, como Dr. Cueca. Ele era criativo, engraçado. O outro aparecia fantasiado de anjo, com uma tampa de privada e umas cordas, fazia uma harpa. ” Em seu artigo O erudito e o que é popular ou Escolas de samba: a estética negra de um espetáculo de massa Maria Lúcia descreve, admirada, o desfile da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis de 1989, quando sob o tema Ratos e urubus larguem a minha fantasia, a Beija-Flor levou para a avenida a denúncia da desigualdade social, fazendo do carnaval carioca a representação da miséria e impressionando os espectadores com o espetáculo da pobreza. “... a reflexão mais dramática e pungente que jamais se vira sobre este país, o lixo de sua riqueza iníqua, a miséria e o luxo de seu povo, glória efêmera do carnaval, trajetória da própria Beija-Flor! (...) procurava-se, na opinião de ouvintes e espectadores, captar o impacto do desfile pelo comentário de algum de seus aspectos – da presença do Cristo coberto de negro na avenida à multidão de mendigos sujos, fantasias rasgadas, alegorias terríveis...” (p.10) Mais preocupada com a glorificação do espetáculo e do talento do carnavalesco Joãozinho Trinta, Maria Lúcia não toca no ponto principal, que seria a abertura que esse desfile proporcionou para agravar o consumismo do carnaval. Podemos enxergar esse desfile como o reflexo invertido do que representa a Marquês de Sapucaí na atualidade; um teatro, onde o povo brinca e faz “palhaçadas” para aqueles que estão atrás das câmeras ou dos camarotes se sentirem por alguns minutos próximos do “povão” e capazes de embeberem da verdadeira cultura brasileira. Falo em inversão no caso do desfile de 1989 da Beija-Flor porque durante esse espetáculo o povo se tornou representante de sua própria realidade, o que não ameniza a exclusão nem significa uma democratização do desfile, como sugere a autora. “Um milagre se produzira na avenida, fundindo num mesmo todo realidade e ficção, quando alguém teve a inspiração de abrir os portões ao longo do sambódromo, deixando entrar o povo sem grana...” (p.10) Tinhorão aborda em
de seus artigos publicados no Jornal do Brasil um desses tipos de exibicionismo,
chamando a atenção para o fato do fenômeno que se
desenvolveu desde a década de 60 que tornou o artista negro sempre
exótico e engraçado. È como se o fato de ser engraçado
fosse, para o artista negro, o passaporte e o único caminho para
o sucesso. “Escola de samba é um fenômeno morto como a cultura popular. Ela é, hoje, um show que pode ser assinado por um empresário de teatro, como o Carlos Machado. O importante é saber até que ponto a gente pode influenciar, dizer e denunciar esse fato de uma predominância de atenção para uma das partes desse universo que compõe do carnaval. Até que ponto a gente pode dizer para as autoridades: modifiquem o estado das coisas, deixem de fazer a coisa de um ponto de vista apenas utilitário, de projeção, de coisa feita só para a televisão, para turismo (...) O enfoque não deveria ser de turismo, nem de televisão, mas sim de cultura. ” Podemos identificar uma significativa
semelhança entre essa discussão e o que aconteceu com
os desfiles das escolas de samba ao longo das últimas quatro
décadas. Passistas com saltos enormes mostrando o rebolado para
as câmeras de televisão, pandeiristas fazendo piruetas
e acrobacias, entre outras gracinhas e macaquices. Seja da forma que
for o desfile transformou-se num picadeiro, num espetáculo onde
o povo representa uma realidade ambígua. De um lado estão
representando sua escola, parte de uma identidade comum, de outro estão
cercados de um mundo que não os pertence. “O carnaval sempre representou uma festa onde o povo se manifestava. Quando se descobriu que ele era uma grande atração turística, o carnaval foi institucionalizado. A prefeitura oferece uma ajuda monetária anual, em troca de regulamentos. O carnaval tornou-se, então, veículo de promoção. Senhoras da sociedade, como dona Beki Kablin e dona Odile Rubirosa, começaram a integrar as escolas de samba, incentivadas pelas autoridades em turismo. O homem do morro começou a sofrer a ameaça de não poder mais desfilar porque não tem dinheiro para comprar uma fantasia rica. Essas senhoras levaram a riqueza para as escolas. O destaque começou a ser feito por quem tem maior poder aquisitivo. As alas, por sua vez, tiveram que comprar fantasias mais caras, para não ter uma distância muito grande entre elas e o destaque”. Como podemos perceber, anula-se o princípio da descontração, do divertimento, da espontaneidade e supervaloriza-se o espetáculo. E até a brincadeira torna-se uma forma de exibição, onde o povo se diverte mostrando para as câmeras o quanto o carnaval é divertido, conseguindo com isso obter reconhecimento e respeito. O papel do povo nesse “carnaval do espetáculo” é de mero coadjuvante que tem, por alguns poucos momentos, a oportunidade de tornar a “sua” festa pública, valorizada e conhecida mundialmente.
Fontes primárias: Localização Jornais consultados: Localização
AZEVEDO, M. A, de (Nirez);
BARBALHO, Gracio; SANTOS, Alcino; SEVERIANO, Jairo. Discografia Brasileira
78 rpm (1902-1964) 4 vol., Rio de Janeiro, Edição Funarte,
1982.
BENEVIDES, André.
Projeto nacionalista de Getúlio Vargas se beneficiou do samba,
Dissertação de mestrado, São Paulo: USP, 2002.
Referências Bibliográficas: ANDRADE, Mário de.
Aspectos da música brasileira, São Paulo, Martins, 1972. |
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